Brasil
Um ano após a proibição de celulares nas escolas, professores e alunos já percebem mudanças no cotidiano: mais foco nas aulas, melhora no desempenho e maior participação dos estudantes. Nos intervalos, a cena também é outra, com mais conversas, jogos e interação entre colegas.
Os celulares, antes usados para fotografar o quadro e substituir o caderno, agora dão lugar às anotações feitas à mão durante as aulas. Para educadores, a mudança reflete um novo cenário de atenção em sala. “A atenção é um recurso escasso e disputar a atenção com os celulares é algo desafiador. E quando a lei chega para somar o que a escola acredita, ela traz uma possibilidade, ela favorece com que as crianças e os adolescentes tenham sua atenção voltada para a convivência”, afirma Cristine Rosado, diretora pedagógica do CEI Romualdo Galvão.
O CEI não se coloca contra a tecnologia, mas defende que ela seja utilizada de forma planejada e com objetivos claros de aprendizagem. “O que traz a vantagem da legislação é que a tecnologia seja utilizada quando ela é tecnologia educacional, quando ela traz vantagens para o aluno, e não quando ela tira o aluno da convivência, da brincadeira”, alerta a diretora pedagógica Cristine Rosado.
No início, alunos tentavam esconder os celulares ou mantê-los consigo, demonstrando a dificuldade de adaptação à nova rotina. “Eles tentavam esconder o celular, guardar. Porque eles pensavam que não iam sobreviver sem”, brinca Rosado. Com o tempo, no entanto, a percepção é de que a situação se estabilizou e os estudantes passaram a se adaptar melhor às regras.
A professora Suênia Medeiros, que leciona Filosofia e Sociologia no CEI Romualdo Galvão, explica que os alunos estão mais questionadores e que já é possível perceber mudanças na dinâmica em sala de aula. “A gente percebe uma maior interação entre eles em sala de aula, uma conexão mesmo com a turma e com o professor”, afirma.
Segundo ela, com a restrição do uso de celulares, os estudantes passaram a direcionar mais a atenção para as relações interpessoais, em vez de focarem em dispositivos eletrônicos e no entretenimento das telas. “Você tem um aluno agora mais focado, mais interessado, mais atento. As aulas, o conteúdo vêm fluindo bem melhor. O tempo de aula é mais proveitoso”, pontua a professora.
A mudança na rotina escolar, após a proibição do uso de celulares, já é percebida no cotidiano dos estudantes tanto dentro quanto fora da sala de aula. Segundo a orientadora educacional do Ensino Médio do Marista, Ana Caroline Ferreira, práticas digitais deram lugar a dinâmicas mais tradicionais. “Antes eles estavam se reunindo para jogar no celular. E agora eles se envolvem mais com a sinuca, totó e conversar”, relata.
A orientadora aponta que, em vez de grupos digitais e mensagens instantâneas, surgiram novas formas de interação mais simples e presenciais. “Agora eles fazem recadinho, escrevem papel quando querem espalhar alguma notícia”, explica a educadora.
Segundo a orientadora, essas iniciativas ajudaram a integrar diferentes setores da escola e a fortalecer a convivência entre os estudantes, que passaram a ocupar mais os espaços coletivos e a vivenciar uma rotina mais ativa e integrada. “Foram criados outros projetos aqui, como, por exemplo, eles têm uma Copa Recreio, que vai começar agora, que foi idealização do Grêmio. Então, eles têm partidas na hora do intervalo. O setor de arte incentivou a rádio musical, a criação da rádio”, conta a orientadora Ana Caroline.
Dependência da tecnologia
Para Raphael Bender, professor de biologia no Centro Estadual de Educação Profissional Professora Lourdinha Guerra (CEEP), compreender as demandas da sociedade atual é fundamental para que as escolas consigam atuar de forma mais eficaz. “Educar para o uso consciente da tecnologia é hoje, sem dúvida, uma responsabilidade formativa da escola. Eu vejo essa medida como mais do que uma forma disciplinar”, destaca.
Fonte. Tribuna do Norte


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